Antecedentes


Através da investigação sabemos que riscos adicionais para a  saúde mental surgem em tempos de mudança económica (Uutela, 2010). Como as pessoas descem no nível sócio-económico devido ao desemprego,  empobrecimento e endividamento, os factores de proteção são enfraquecidos, os factores de risco são fortalecidos e a saúde mental é afectada negativamente.

Em Portugal, já com uma prevalência de 12 meses de 22,9% em relação às perturbações mentais em 2009 (Caldas de Almeida e Xavier, 2013), os potenciais efeitos negativos da crise económica actual constituem, portanto, um motivo de preocupação.

A crise económica registada na Ásia aumentou as desigualdades relacionadas com o rendimento em relação à depressão e ao suicídio (Hong et al, 2011; Chang et al, 2009). O impacto pleno da crise económica mundial de 2008 continua ainda por avaliar, mas relatos de efeitos negativos de saúde mental têm vindo a emergir.

Na Grécia, estudos transversais realizados em 2008 (Madianos et al., 2011), 2009 e 2011 (Economou et al., 2013) encontraram uma associação entre depressão e crise económica. Em Espanha foi encontrado um aumento na prevalência de problemas  de saúde mental ao nível dos cuidados primários entre 2006-07 e 2010-11, com o desemprego, dificuldades de pagamento de hipotecas e desalojamentos como principais fatores de risco (Gili et al., 2013), e um aumento de problemas de  saúde mental foi encontrada entre os homens (Bartoll et al., 2013). O nível médio de felicidade auto-avaliado na Irlanda diminuiu em 2005-12, e a utilização de tranquilizantes aumentou (Kelly et al., 2013). Na Islândia, o stress psicológico pode ter aumentado após o colapso económico, especialmente entre as mulheres em grupos economicamente vulneráveis ​​(Hauksdóttir et al., 2013). Na Eslovénia, os níveis de depressão e ansiedade aumentaram entre os trabalhadores após a crise (Avčin et al., 2011). Na Inglaterra, a saúde mental nos homens deteriorou-se nos 2 anos após o início da actual recessão (Katikireddi et al., 2012). Estudos no Canadá (Wang et al., 2010) e Hong Kong (Lee et al., 2010), concluiram que a crise está associada ao aumento do risco de depressão major. Em Portugal, houve um aumento na incidência anual  de primeiros episódios de depressão nos cuidados primários de saúde entre 2004 e 2012 (Rodrigues et al., 2014).

Após a crise económica de 2008, as taxas de suicídio aumentaram em 54 países europeus e americanos, particularmente nos homens e em países com níveis de desemprego mais elevados (Chang et al., 2013). Houve um aumento na prevalência de ideação suicida e de tentativas de suicídio na Grécia (Economou et al., 2013) e observou-se o aumento das taxas de suicídio na Grécia (Simou et al., 2014), Irlanda (Kelly et al., 2013 ), Inglaterra (Barr et al., 2012) e EUA (Reeves et al., 2012).

Aa acções identificadas como eficazes no alivio do impacto da crise económica sobre a saúde mental incluem: aceleração das reformas de saúde mental que envolvem os cuidados primários, apoio activo do mercado de trabalho para os desempregados, programas de apoio à família, e programas de alívio da dívida (Walbeck et al, 2012.).

Mais estudos são necessários a partir de inquéritos populacionais transversais ou longitudinais para melhor compreender a relação entre a recessão económica e a incidência de transtornos mentais específicos, bem como para desenvolver políticas e intervenções inovadoras.

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Lisboa, por Luca Sartoni | CC BY-SA 2.0